quarta-feira, 18 de maio de 2011

Uma Carta para Pandora





Ao chegar à pequena cidade, a passos lentos levo minha mala e minha caixa amassada pela viagem cujas recordações nela contidas estão amassadas pelo tempo. De acordo com os moradores o meio de comunicação via telefone fica a quase cinco quilômetros da casa onde estou. Realmente estou em um ambiente bucólico.

Não vou tirar muitas coisas agora, quem sabe algumas dessas mesmas coisas nunca mais saiam desta caixa... Caixa de Pandora. Que saudade da minha amiga!!

Seu nome não é só um refrigério, é a personificação do que há de melhor em mim em outro corpo, outro ser.

“ Shalott, 13 de maio.

Pandora...

Faz tempo que não lhe escrevo.

Cheguei a poucos dias em Shalott e aqui o vento é mais audível e parece que ele acaricia além da pele, além dos cabelos, além dos sentimentos.

Encontrei uma casa e agora iniciarei uma nova etapa.

A casa é confortável e antiga, porem bem conservada.

Vejo uma inscrição num documento secreto, um camafeu, dentro de um móvel envernizado escuro típico dessa região... “Alice”. (Quem terá sido? Será que morou sozinha aqui? Será que se casou? Teve filhos? Foi feliz?)

Sim, eu sei. Sou curiosa. Podemos até nos aprimorar, mas mudar a essência é algo praticamente impossível.

Acredito que a pessoa que a projetou preferia a noite ao dia já que as janelas são grandes e desenhadas em vitrais e voltadas para oeste ao invés do leste (Sol Nascente), mas nem por isso deixa de ser mágico (porque não dizer Surreal) o ambiente.

Um piano clássico, retratos feitos à mão de dar inveja a qualquer Da Vinci, cômodos grandes e salas secretas, lembranças que alguém foi feliz aqui ou pelo menos tentou ser.

Os moveis no estilo medieval deixam escapar o perfeccionismo e exigência de si mesmo do antigo morador. As paredes “um tom acima do bege” com misturas de cores em lilás claro enfeitam os olhos de quem vê.

O que mais me impressiona na casa não é seu estado de conservação, e sim um objeto dentro dela:

"Dentro do quarto de dormir, próximo a janela lateral", na diagonal da cama com renda clara há um espelho, o mais lindo e magnético que já vi. Possui mais ou menos três metros de largura por dois e meio de altura, contornado por uma moldura dourada cuja ombreira está gravada as iniciais “JV”. Não há um grão de poeira e quem olha para ele não vê a si próprio e sim o que realmente somos. Qual será o mistério desse espelho?

O que será que ele já “viu”?

Essa casa, essa nova fase, tem cheiro da essência de lírios que estou acostumada e tanto aprecio e provoca uma sensação de bem estar como chocolate quente numa manhã de outono.

Queria que você estivesse aqui. Sinto falta de um abraço sincero.

Venha me visitar o mais rápido possível... estou curiosa para ver o que vem pela frente.

Com Carinho

Sua Irmã

Avalon

(Coloquei a carta presa ao espelho, pela manhã postarei e aproveitarei para aproveitar a cidade. Já são 00h13min do dia seguinte e eu não senti o dia acabar. Alias, não senti esse período passar. Foram apenas 13 minutos que estivemos nesta vida?)

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Onde tudo continuou...


Não me lembro se era final de verão ou inicio de outono quando abri mão da minha vida. Das coisas que restaram eram fotos, cadernos, lembranças e transmutação de sentimentos. Não faz mais sentido continuar nessa cidade insípida e cinzenta e para tal preciso de um pouco de paz para me concentrar no trabalho e decisões importantes nos próximos dias.

Coloco post-it’s nas coisas para não perder nada, afinal as pequenas coisas que nos constroem se perdem e o que deixamos para trás não conseguimos recuperar tão facilmente. Os fracos de perfumes com “essência de lírios” já estão vazios e simplesmente não consigo jogá-los fora. Mas é hora de olhar para frente e desapegar das coisas que estão vazias. Devo desapegar de mim mesma? È... acho que chegou a hora. O taxi amarelo típico chega 13 minutos atrasados de um dia 13.

Malas prontas e vou para uma cidadezinha no interior da Europa. Da minha casa eu já não faço tanta questão mas guardo o velho chaveiro caso um dia volte...

Engraçado como a as cores se misturam dentro das caixas de papelão dos brincos, das cartas, os extratos bancários o velho diário infantil, uma pétala de rosa branca – seca e sem o menor sinal de vida – que um ursinho de pelúcia um dia segurou junto a um poema escrito em inglês às pressas num pedaço rasgado de papel. Nem acredito que deixarei isso para trás. ...

As folhas das arvores ja encontram no chao sua morada e o vento caricia a pele de quem passa na rua, apressado, confuso, dividindo culturas. "... é ... acredito que será melhor assim."





Avalon