Ao chegar à pequena cidade, a passos lentos levo minha mala e minha caixa amassada pela viagem cujas recordações nela contidas estão amassadas pelo tempo. De acordo com os moradores o meio de comunicação via telefone fica a quase cinco quilômetros da casa onde estou. Realmente estou em um ambiente bucólico.
Não vou tirar muitas coisas agora, quem sabe algumas dessas mesmas coisas nunca mais saiam desta caixa... Caixa de Pandora. Que saudade da minha amiga!!
Seu nome não é só um refrigério, é a personificação do que há de melhor em mim em outro corpo, outro ser.
“ Shalott, 13 de maio.
Pandora...
Faz tempo que não lhe escrevo.
Cheguei a poucos dias em Shalott e aqui o vento é mais audível e parece que ele acaricia além da pele, além dos cabelos, além dos sentimentos.
Encontrei uma casa e agora iniciarei uma nova etapa.
A casa é confortável e antiga, porem bem conservada.
Vejo uma inscrição num documento secreto, um camafeu, dentro de um móvel envernizado escuro típico dessa região... “Alice”. (Quem terá sido? Será que morou sozinha aqui? Será que se casou? Teve filhos? Foi feliz?)
Sim, eu sei. Sou curiosa. Podemos até nos aprimorar, mas mudar a essência é algo praticamente impossível.
Acredito que a pessoa que a projetou preferia a noite ao dia já que as janelas são grandes e desenhadas em vitrais e voltadas para oeste ao invés do leste (Sol Nascente), mas nem por isso deixa de ser mágico (porque não dizer Surreal) o ambiente.
Um piano clássico, retratos feitos à mão de dar inveja a qualquer Da Vinci, cômodos grandes e salas secretas, lembranças que alguém foi feliz aqui ou pelo menos tentou ser.
Os moveis no estilo medieval deixam escapar o perfeccionismo e exigência de si mesmo do antigo morador. As paredes “um tom acima do bege” com misturas de cores em lilás claro enfeitam os olhos de quem vê.
O que mais me impressiona na casa não é seu estado de conservação, e sim um objeto dentro dela:
"Dentro do quarto de dormir, próximo a janela lateral", na diagonal da cama com renda clara há um espelho, o mais lindo e magnético que já vi. Possui mais ou menos três metros de largura por dois e meio de altura, contornado por uma moldura dourada cuja ombreira está gravada as iniciais “JV”. Não há um grão de poeira e quem olha para ele não vê a si próprio e sim o que realmente somos. Qual será o mistério desse espelho?
O que será que ele já “viu”?
Essa casa, essa nova fase, tem cheiro da essência de lírios que estou acostumada e tanto aprecio e provoca uma sensação de bem estar como chocolate quente numa manhã de outono.
Queria que você estivesse aqui. Sinto falta de um abraço sincero.
Venha me visitar o mais rápido possível... estou curiosa para ver o que vem pela frente.
Com Carinho
Sua Irmã
Avalon
(Coloquei a carta presa ao espelho, pela manhã postarei e aproveitarei para aproveitar a cidade. Já são 00h13min do dia seguinte e eu não senti o dia acabar. Alias, não senti esse período passar. Foram apenas 13 minutos que estivemos nesta vida?)
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